Esse é um repost dessa série "Ampulheta" do Blog da Pamella, postado em dezembro de 2010.
Quem gostou lê de novo, quem não leu, leia e deixe sua opinião. Beijos!
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Eu aprendi a ler com 4 anos, fuçando num caderno de receitas da minha mãe e me lembro: minha primeira palavra foi Capítulo. Saí correndo pra contar a novidade pra minha mãe, que sorriu e me abraçou.
Desse dia em diante minha mãe quis me colocar na escola mas, pela pouca idade, eu teria que esperar mais um ano. E eu sonhava em ir pra escola, dava nome a todos os meus amiguinhos, dava aulas pros meus alunos invisíveis. E comia todas as bolachas deles também, mas isso não vem ao caso.
Mas uma coisa que assolava minha pequena cabeça grande e minha mãe ria muito disso, como ela adora me lembrar: se eu ia pra escola então eu já tinha que ter uma base; eu dizia "-MÃE EU NÃO SEI LER!"
E sério, não adiantava minha mãe dizer que a gente ia pra escola justamente por isso: pra aprender. "Não porque eu tenho que saber, que tenho porque tenho e MIMIMI". E batia o pé.
Minha mãe, anjo que sempre foi, resolveu me ensinar algumas coisas: vogais e palavras e letras e formas e curvas e nomes e vírgulas e detalhes.
O tempo passou, eu cresci, mas aquela paixão continuava. De modo exagerado admito.
Eu já quis escrever um atlas num caderno brochura e já comecei várias histórias onde a personagem começava seu dia tomando um suco de laranja. Nada a ver.
Na sexta série começaram as propostas de redação mais complexas, e eu tirei de letra. De modo exagerado, de novo. Os meus amigos rascunhavam umas 20 linhas por proposta. Minhas redações levavam a tarde toda pra serem escritas e tinha 7 folhas de caderno universitário frente e verso.
Problemas.
Mas eu notei que quando havia regras do tipo 'dissertação com 30 linhas sobre o desmatamento e outros problemas ambientais' eu SEMPRE travava. Agora, quando não tinha regras, nossa! Eu desembestava lindamente a escrever.
Até no Enem, vestibular, essas coisas eu nunca me dei bem. Quer dizer, não era de todo o mal, mas definitivamente minhas notas eram maiores na parte objetiva.
Eu não tenho e acho que nunca terei poder de resumir e limitar minhas idéias.
Eu queria muito conversar com pessoas mas estava revoltada (?) porque ninguém me escutava. Foi com 15 anos que comecei a trocar idéia com alguém que me entendia perfeitamente, sem me interromper ou olhar pro lado quando eu falava.
Eu mesma.
Eu falava sozinha. No banheiro, pra ser mais exata. Nossa, trocava altas idéias comigo mesma.
Passei anos desse jeito e confesso que às vezes ainda faço isso, enfim.
Até que um dia, minha mãe bateu na porta em perguntou com quem eu estava conversando. É, eu tinha me empolgado.
Precisava de outra solução: queria expor o que eu pensava sem ter medo de represálias. Porque quando um adolescente pensa, as pessoas querem podar seus devaneios. Nem era tão popular ainda esse negócio de blog, mas eu resolvi fazer. Ninguém ia ler, eu sabia, visto que eu não divulgava e tal.
Se você tiver paciência, visite minhas postagens antigas e veja a qualidade medíocre dos meus textos. Eles até fazem sentido, mas com a cabeça que tenho hoje, vejo que eu faria diferente: um pouco menos de revolta, um pouco mais de sapiência.
Mas veja bem, o passado que constrói a nossa essência. E devo dizer que precisei passar por todas as revoltas com e sem causa, os estresses, as discussões e brigas, mas sempre observando as pessoas e definindo o que eu NÃO queria ser. Tudo isso constrói caráter.
Depois que conheci a poesia em 2008 pelos textos do @tyagodepaula, a quem agradeço profundamente pela amizade e influência, a temática e o tom dos textos mudaram completamente.
Hoje já consigo não só pensar em rimas, mas também em assuntos que fujam um pouco do habitual. Assuntos que estão todos os dias na sua frente, e que se tornam normais. Mas não deveriam.
Alguns amigos me perguntaram porque eu não deixo somente as poesias aqui e excluo os textos revoltados do início. Eu digo que eu não gosto de esquecer a minha raiz, a minha base sabe?
Gosto muito de me lembrar como fui, pra continuar sendo as coisas boas e esquecer as coisas não tão boas assim.
Dei o título de Ampulheta pra essa "Série" porque está relacionada a tempo, que liga a (r)evolução de ideias e comportamento, mudança, upgrade. Que lembra que a gente tem que mudar sempre, adicionar coisas novas à nossa vida, mas nunca se esquecer das origens.
E aquela primeira palavra que eu li... Ah agradeço à minha curiosidade que me incitou a entrar nesse mundo louco e maravilhoso das letras!
E agradeço a vocês, meus queridos amigos e amigas pelos acessos e comentários que venho recebendo a cada dia que passa. O carinho é enorme, adoro vocês de verdade, perto ou longe, não importa.



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