Às vezes eu acho que deve ter alguma coisa de errada comigo.
Sabe quando você entra num lugar, você não quer nada com nada, apenas seguir seu caminho sem incomodar ninguém, mas todos os olhares se voltam para você, te olhando com curiosidade e desejo de saber 'quem é esta nobre pessoa que adentra o recinto?'. Pois é, acontece a mesma coisa comigo, mas ao contrário.
TODA VEZ, não é uma, duas ou três, é TODA VEZ que eu entro no ônibus, que estou andando no shopping, que estou andando na rua, que vou num restaurante, que estou numa loja, seja lá o que for que envolva pessoas que eu nunca vi na vida, acontece isso: a pessoa me olha como se eu fosse um animal bizarro dentro de uma urna de vidro.
Não é aquele (des)interesse habitual, de saber quem é, pra ver se me conhece de algum lugar, ou apenas ignorar minha passagem. Mas é aquele olhar de desprezo e curiosidade extraordinária de alguém que está vendo um extraterrestre. E o pior, aquele olhar que mede de cima abaixo e (típico de mulheres nojentas) analisa qual a marca e o estado de conservação da sua roupa, sapatos, bolsa e maquiagem. Estranho, né?
99% das vezes que percebo tais olhares são de meninas ou mulheres ou senhoras de idade. Mas eu não sei porque isso acontece, porque eu não uso piercings na cara, não tenho estrelas tatuadas na lateral do rosto, não sou careca, não uso moicano, não sou loira, não tenho luzes, não tenho olhos azuis vivos, não tenho olhos verdes vivos, não sou azul nem verde, não sou altona, não sou gordona, não sou (tão) bizarra. Sou absolutamente comum.
Antes, quando eu notava tais olhares, eu abaixava a cabeça e continuava cabrestadamente até chegar no meu assento no ônibus ou na minha mesa no restaurante. Hoje não: se eu percebo algum olhar, eu já olho nos olhos, como se eles tivessem lasers e perguntassem ''QUALÉQUIÉ?".
Eu não ligo muito, mas eu realmente gostaria de chegar um dia e perguntar para a observadora se tem algo de errado. Se fizer algum sentido, talvez eu pinte minha cara de arco-iris e raspe todo o cabelo para fazer jus aos olhares curiosos. Afinal, não tem sentido nenhum apreciar o que é comum.
